Autólogo, alogênico, haplo, NAP: o alfabeto do transplante de medula óssea.

por | set 24, 2026 | Uncategorized | 0 Comentários

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Autólogo, alogênico, haplo, NAP, condicionamento, mobilização… Se você já ouviu esses termos e ficou perdido, esse texto é para você. 

A proposta aqui é simples: decodificar o vocabulário do transplante de medula óssea (TMO) para que você consiga entender qualquer conversa sobre o assunto.

Vamos começar pelo transplante autólogo, que é quando o próprio paciente é o doador. 

Nesse tipo de TMO, usamos as células-tronco do próprio paciente. Primeiro, fazemos a mobilização: estimulamos as células-tronco a saírem da medula óssea e passarem a circular no sangue. Depois, coletamos uma fração dessas células por uma máquina de aférese.

Essa coleta prévia existe por um motivo específico: livrar as células-tronco do efeito tóxico da quimioterapia em altas doses que é feita no transplante, o condicionamento, cujo objetivo é erradicar a doença do paciente. 

Depois do condicionamento, infundimos essas células de volta, de forma parecida com uma transfusão de sangue. Geralmente, cerca de 10 dias após a infusão, o hemograma começa a normalizar, é o que chamamos de pega da medula. Como não existe doador externo, o autólogo não causa a doença do enxerto contra o hospedeiro. É um tipo de transplante muito usado no tratamento de mieloma múltiplo e linfoma.

Já no transplante alogênico, a célula-tronco vem de outra pessoa, o doador.

O condicionamento também muda de função: além de erradicar a doença, ele imunossuprime o paciente para permitir que o organismo aceite as células do doador. A pega da medula, nesse caso, costuma ocorrer em média no 15º dia.

E é a partir daqui que tudo muda: o sistema imunológico que passa a circular no paciente é o do doador. Isso tem duas faces. Por um lado, esse sistema pode não reconhecer os órgãos do paciente como próprios e atacá-los, é a doença do enxerto contra o hospedeiro, a DECH (ou GVHD, em inglês), controlada com medicamentos imunossupressores por um período após a infusão. Por outro lado, esse mesmo sistema imune é uma arma a mais contra a doença que levou o paciente ao transplante, o efeito enxerto-versus-leucemia, responsável por parte da cura em diversas doenças malignas do sangue.

Dentro do alogênico, o doador pode ser aparentado, classicamente, um irmão, ou não aparentado (NAP), vindo de um banco de doadores voluntários, como o REDOME, no Brasil, ou registros internacionais. O desafio do doador não aparentado é o tempo: buscar, tipar e confirmar compatibilidade pode levar meses, e nem todo paciente encontra um doador a tempo. Transplantes com doador NAP também costumam exigir mais imunossupressão.

Por fim, o transplante haploidêntico ou haplo.

O TMO haplo usa um doador aparentado com metade da compatibilidade. Pais, mães e filhos são sempre haploidênticos entre si, e irmãos também podem ser.

A vantagem é a disponibilidade: praticamente todo paciente tem um doador haplo à mão, e rapidamente. A contrapartida é que, com metade da compatibilidade, o risco de DECH é maior, o que foi contornado com o uso da ciclofosfamida em altas doses após o transplante, reduzindo bastante esse risco.

Resumindo o alfabeto do TMO

  • No autólogo, usamos a própria célula do paciente; 
  • No alogênico, usamos a célula de outra pessoa, que pode ser um doador aparentado ou um doador de banco (NAP);
  • Dentro do aparentado, hoje conseguimos usar também o doador haplo, com metade da compatibilidade.